quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Vidas na raia


Centrámo-nos hoje na obra de Manuela Ribeiro, Manuela Carlos Silva, Johanna Schouten, Fernando Bessa Ribeiro, Octávio Sacramento (2008) Vidas na Raia – Prostituição feminina em regiões de fronteira, Porto, Afrontamento, 433 pp.
Uma equipa dirigida por Manuela Ribeiro, da UTAD, com cientistas sociais de três universidades fronteiriças portuguesas (Minho, Beira Interior e Trás-os-Montes e Alto Douro) dedicou-se ao estudo desse «campo social complexo» da prostituição raiana, com a finalidade de «compreender e explicar os mecanismos e factores subjacentes a este fenómeno, recorrente e metamórfico» (p.30) em termos locais, regionais, nacionais e transnacionais.
Como compreender e explicar o recorrente fenómeno histórico da prostituição? Quais as causas ou factores estruturantes da sua (re)emergência designadamente nas sociedades modernas e, em particular, na região transfronteiriça entre Norte de Portugal e Galiza-Castela-Leão? Como se organizam os promotores, que mudanças, que traços comuns e/ou específicos apresenta a actual configuração da prostituição face às formas tradicionais designadamente em meio urbano, semiurbano rural do norte, nomeadamente nas regiões transfronteiriças? Até que ponto é possível, desejável e exequível a abolição desta prática social? E, em caso negativo, até que ponto é possível minorar os seus efeitos negativos ou perversos para as próprias protagonistas, para os clientes e para a sociedade em geral?”(p. 31)Esta investigação pormenorizada, de grande importância pela quantidade e qualidade dos materiais que traz à colação, é de leitura imprescindível para quantos trabalham quer sobre o fenómeno da prostituição, quer sobre o carácter actual das fronteiras. Visou conhecer as mulheres que a exercem, sobretudo no norte; compreender interesses e motivações dos clientes; perceber os tipos principais de prostituição na raia norte; examinar os quadros institucionais e legais de enquadramento da prostituição; conhecer normas e práticas de diversas entidades; analisar a prostituição como condição prévia para uma política sexual; promover a saúde pública e combater a criminalidade organizada. O perfil implicado da equipa ajuda-nos a entender a afirmação duma mulher, depois duma entrevista, referindo que pela primeira vez desde que chegou [a Portugal?] se sentiu tratada como gente (p. 89).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Fronteiras, limites, confins


Nas últimas aulas fizémos um balanço dos estudos sobre a fronteira, um dos temas a que conferimos centralidade no programa da cadeira. Olhámos para as periferias vendo-as como centros - não há periferia na periferia - em que os arranjos entre pessoas e grupos são decisivos, com uma difícil implantação das lealdades aos Estados centrais. Para a próxima sessão de seminário pedia-vos que pensassem nas duas citações que se seguem e que intervenham tendo em conta os conteúdos apreendidos.

We live in a world of lines and compartments. We may not necessarily see the lines, but they order our daily life practices, strengthening our belongings to, and identity with, places and groups, while – at one and the same time – perpetuating and reperpetuating notions of difference and othering.”

NEWMAN, David (2006) “The lines that continue to separate us: borders in our ‘borderless world”, Progress in Human Geography, 30 (2):143

In the age of flexible production, we all live in the borderlands. Capital, deterritorialized and decentred, establishes borderlands where it can move freely, away of the control of states and societies but in collusion with states against societies.”

Dirlik, in BANDY, Joe (2000) “Bordering the Future: Resisting Neoliberalism in the Borderlands”, Critical Sociology, 26, 3:261

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Visita de estudo ao Museu do Fado

Na sexta-feira, encontrámo-nos no Largo do Chafariz de Centro, em Alfama, para uma visita guiada ao Museu do Fado. O João Dias fez as fotos que se seguem, sobretudo da visita pelo bairro.



O beco do Carneiro - ou como as sociabilidades podem ser «estreitadas» pela arquitectura.

Um dos vários lavadouros públicos do bairro, que hoje só abre a pedido.

A partir do adro da igreja de Santo Estêvão, todo o casario do bairro e o rio, cujas actividades são centrais na vida do bairro.

Um grupo bem disposto, já mais curto do que os 35 que visitaram o Museu.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Convite para uma visita de estudo ao Museu do Fado


Convido-vos a juntarem-se à visita de estudo ao Museu do Fado, que será realizada no âmbito da cadeira de Antropologia Portuguesa Contemporânea, na próxima sexta-feira, 16 de Outubro, às 10h30. Pela duração da visita, entrará pela nossa hora de aula, que terá de ser suspensa. Se puderem ir, não darão o vosso tempo por perdido, já que o fado pode ser o tal «grão de areia» de que falava Clifford Geertz, a partir do qual se pode ler a sociedade portuguesa e o poder, com conjunturas históricas variadas a imprimirem marcas diversificadas nesta expressão de cultura popular urbana. Lá vos espero.

Entre os fenómenos globais, as crises recentes do capitalismo e os seus reflexos na vida dos indivíduos, outras são as escalas possíveis. Susana Narotzky e Gavin Smith (Susana Narotzky e Gavin Smith, Immediate struggles – People, Power and Place in Rural Spain, University of California Press, Berkeley/Los Angeles, 2006, 250 pp)interrogaram o discurso hegemónico das economias regionais, que emerge na «Europa das regiões», com uma produção «flexível», empresas dispersas e uma noção de «capital social» alheia à de Pierre Bourdieu. Centrados em Catral, na vega Baja do Segura, Alicante, numa abordagem entre a antropologia e a história,os autores questionam a ideia duma cultura empresarial regional, considerando que obnubila as tensões do poder, interrogando as práticas instituídas de regulação social num dado momento e que, tomadas em conjunto, dão forma ao Estado. Considerar que as pessoas do local X têm propensão para trabalhar muito e com horário flexível, retirando daí conclusões, só pode servir propósitos ideológicos, furtando-se a uma sagaz análise crítica. Nesta obra imprescindível, os autores recordam-nos que, como cientistas sociais, devemos estar preparados para a complexidade da realidade, seja através das forças hegemónicas, seja das respostas dos subalternos, parecendo-lhes crucial a necessidade de reinventar a importância do conceito de classe, com o conflito e a luta como constitutivos das relações sociais.
Espero que a recensão do livro (que publiquei em Historia Agraria, revista da Sociedad Española de Historia Agraria, nº 45, Agosto, pp. 207-211) seja estimulante para a leitura. Foi enviada para o mail da turma.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Textos a recensear

Acabou de ser enviada para antropos2007@gmail.com a lista dos textos a recensear com a respectiva calendarização. Vejam quais os que mais vos interessem e na próxima sessão, na sexta-feira, circulará a lista para poderem fazer a vossa escolha. a mior parte dos que não têm link ficará na casa das folhas a partir de amanhã. Bom trabalho!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ciclo da UNIPOP

A POLÍTICA PARA ALÉM DA POLÍTICA
ciclo de sete debates da Unipop e do Maria Matos


DE 10 DE OUTUBRO A 24 DE NOVEMBRO. SEMPRE ÀS 18H30 DE TERÇA-FEIRA, NO BAR DO TEATRO MARIA MATOS.
Entrada livre

Política. Provavelmente, nas duas últimas décadas, não haverá palavra cuja crise tenha sido mais vezes anunciada. A simples enunciação do termo parece suscitar cansaço, fastio, ou na melhor das hipóteses um comentário irónico, céptico, cínico. E contudo não existe outro caminho que não o de voltar uma e outra vez a discutir política, a questão estando no que se entende por política.

Por isso dizemos que este ciclo de sete debates propõe levar a política para além da política e a fórmula sinaliza a vontade de extravasar os debates que predominam na agenda da política institucional, reunindo preferencialmente analistas políticos, ministros, jornalistas, deputados, técnicos de sondagens ou cientistas políticos.

Decorrendo ao fim das tardes de terça-feira, no bar do teatro maria matos, este ciclo trata então de construir um mapa de problemas, da ideia de representação à questão do populismo, passando pela política da plebe ou da multidão, do conceito de biopolítica às políticas de identidade e abordando a relação entre política e polícia.

ORGANIZAÇÃO
Teatro Maria Matos
UNIPOP


debate n.º 1
13 de Outubro

POLÍTICA, RAZÃO E EMOÇÃO
Com Manuel Villaverde Cabral e Manuel Loff

A frequente utilização da ideia de populismo tem levado à sua banalização, a ponto de ser legítimo perguntar se nos tempos que correm populismo não é apenas a forma mais rápida de desautorizar projectos políticos de que se discorda [veja-se Laclau na p.?]. Simultaneamente assistimos a uma crescente tecnicização do debate político, definindo-se a política enquanto assunto de especialistas que deverá privilegiar um tratamento preferencialmente racional, de acordo com o qual uma qualquer relação entre política e emoção reveste um sentido patológico.


Autor de várias obras, de O Operariado nas Vésperas da República a Cidadania e Equidade Política em Portugal, Manuel Villaverde Cabral é investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Lisboa, sendo actualmente Vice-Reitor da Universidade de Lisboa. Manuel Loff é historiador, professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e tem vários trabalhos na área da História. Publicou recentemente O Nosso Século é Fascista! - O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945).


debate n.º 2
20 de Outubro

POLÍTICAS DE IDENTIDADE
Com Miguel Vale de Almeida e Marcos Cardão

Nas últimas décadas, a palavra identidade tornou-se um conceito recorrente no debate político [veja-se texto de Hobsbawm, p.?]. A nível dos movimentos sociais tem sido frequentemente defendida a necessidade de construir identidades que, fundindo dimensões políticas e culturais, permitam a várias figuras subalternas – colonizados, camponeses, indígenas, negros, mulheres, gays – forjar um poder de resistência e transformação que reaja às políticas de identidade dominantes, baseadas no colonialismo, no racismo, no machismo ou na homofobia. Entretanto, este identitarismo estratégico tem sido igualmente criticado pelo facto de ser incapaz de trabalhar uma alternativa que coloque em causa a própria ideia de uma política baseada na noção de identidade, deixando assim por problematizar categorias como nação, género ou família.

Miguel Vale de Almeida é antropólogo e professor no ISCTE. É também activista em movimentos lgbt. Tem várias obras publicadas sobre corpo, “raça” e género. Publicou recentemente A Chave do Armário – Homossexualidade, Casamento e Família. Marcos Cardão é historiador e bolseiro da FCT. Realiza presentemente o seu doutoramento em História, no ISCTE, com uma tese intitulada “Fado Tropical: o Luso-Tropicalismo na Segunda Metade do Século XX".


debate n.º 3
27 de Outubro

A POLÍTICA ‘A PARTIR DE BAIXO’
Com Fátima Sá e Paula Godinho

Quando falamos de política tendemos a conceber uma actividade profissional que ocupa o quotidiano de executivos governamentais e representantes parlamentares. Entretanto sabemos que esta limitação destitui de politicidade a actividade dos que estão à margem daqueles círculos institucionais. Importa por isso recolocar a relação entre política e grupos menos privilegiados num plano de debate que não esteja subordinado aos critérios definidos no quadro daqueles círculos institucionais, critérios estes que tendem a ignorar o que se poderia entender como experiências plebeias da política, experiências que remetem para conceitos como "economia moral da multidão" ou "armas dos fracos" e ecoam a história de inúmeros casos de resistência quotidiana e rebeldia popular [ver texto de Thompson, na p.?].

Fátima Sá é historiadora, professora no ISCTE. Tem trabalhado sobre história dos movimentos sociais, história da cultura popular e história conceptual. Entre outros, publicou Rebeldes e Insubmissos – Resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844). Paula Godinho é antropóloga, leccionando na FCSH-UNL. Tem desenvolvido pesquisa, entre outros temas, em torno de movimentos sociais e contextos de fronteira. Publicou, entre outras obras, Memórias da Resistência Rural no Sul – Couço (1958-1962).


debate n.º 4
3 de Novembro

A CRISE DA REPRESENTAÇÃO
Com José Bragança de Miranda e Ricardo Noronha

De forma a dar conta da distância entre uma elite de representantes e o conjunto dos representados, é amiúde referido que vivemos em plena crise da representação. Assim, os debates em torno da abstenção ou dos votos em branco, ou a referência ao enfraquecimento dos poderes dos Estados nacionais no quadro da globalização, alimentam a ideia de uma crescente crise da representação. Paralelamente, a problemática da representação convoca um debate cujo alcance supera a actualidade político-institucional. No quadro da política, mas não só aqui, o ideal de representação parece pressupor a possibilidade de uma relação incorruptível entre quem representa e aquilo que é representado. De tal modo assim seria que, na relação estabelecida entre governante e governado, o sujeito primeiro reflectiria transparentemente o objecto representado [ver texto de Bourdieu, p.?]. Contudo, se não estivermos seguros desta transparência, o debate da representação deverá começar por perguntar se a representação é sempre um lugar de crise e, por outro lado, questionar se é possível pensar em política e em democracia além da representação.

José Bragança de Miranda é professor de Ciências da Comunicação na FCSH-UNL e professor convidado na Universidade Lusófona. Entre outros, publicou Queda sem fim, Teoria da Cultura e mais recentemente Corpo e Imagem. Ricardo Noronha é historiador, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde realiza o seu doutoramento acerca da nacionalização da banca no pós-25 de Abril.


debate n.º 5
10 de Novembro

POLÍCIA E POLÍTICA
Com Manuel Deniz Silva e Tiago Pires Marques

Em vários países do século XX, a memória da polícia política remete necessariamente para os tempos da ditadura e sabemos que a crítica desses tempos cria uma oposição radical entre a ideia de polícia e a ideia de política. E hoje ainda, quando se trata de debater a relação entre política e polícia, é de um exercício físico e violento do poder de Estado que estamos muitas vezes a falar. Entretanto, polizei, policy, política, polícia, são palavras que percorrem um mesmo universo histórico, num quadro de continuidade e de ruptura que envolve a administração interna, a ordem pública, o direito, a estatística. Neste contexto, e partindo das aproximações de Michel Foucault e Jacques Rancière [ver textos de ambos na p.?], esta sessão procura situar o debate político à luz de um mais amplo entendimento da relação entre polícia e política.

Manuel Deniz Silva é investigador do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos de Música e Dança, da FCSH-UNL. Realizou doutoramento em Paris sobre a História da Música em Portugal e trabalha actualmente sobre música e cinema. Tiago Pires Marques é historiador, investigador na Universidade de Paris I. A sua investigação tem incidido sobre a história do direito penal, do sistema prisional e da criminologia. Publicou, entre outros, Crime e Castigo no Liberalismo em Portugal.


debate n.º 6
17 de Novembro

A BIOPOLÍTICA
Com António Guerreiro e Nuno Nabais

Nos últimos anos, a biopolítica de Michel Foucault tornou-se um sugestivo lugar de debate. O recurso ao conceito parece anunciar que a discussão da política terá que decorrer num plano que extravasa largamente o domínio do institucional, alastrando-se a todas as esferas da vida, no momento em que emergem novas técnicas de governo da população. Entretanto, e a partir da obra de autores como Giorgio Agamben, Roberto Esposito ou Antonio Negri, a noção de biopolítica tem sido objecto de interpretações diversas, por vezes até contraditórias, nuns casos apresentando o conceito como "grito de alerta" contra o actual estado das coisas, noutros interpretando-o como gesto de abertura de novos campos de poder político [ver o texto de Peter Pàl Pelbart, na p.?].

António Guerreiro é crítico no jornal Expresso, tradutor e ensaísta. Tem trabalhado particularmente autores como Walter Benjamin e Giorgio Agamben. Nuno Nabais é professor de filosofia na Universidade de Lisboa e autor, entre outros, de A Metafísica do Trágico. Estudos sobre Nietzsche. É ainda coordenador da Fábrica de Braço de Prata.



debate n.º 7
24 de Novembro

DA CIÊNCIA POLÍTICA À FILOSOFIA
Com Bruno Peixe e Eduardo Pellejero

Ao longo dos últimos anos, os cientistas políticos assumiram um lugar proeminente no comentário e na análise política. Assumindo frequentemente a figura do especialista e do perito, os seus comentários tendem a focar preferencialmente dinâmicas eleitorais e institucionais e, de forma visível em Portugal, a ciência política tem conhecido assinalável desenvolvimento académico, demarcando-se da História, da Antropologia ou da Economia Política. Entretanto, nos últimos anos também assistimos a uma recuperação da filosofia enquanto discurso que é condição da política – e vice-versa [veja-se texto de Badiou, na p.?] – e que em certos casos vem mesmo rejeitar a própria ideia de uma articulação entre ciência e política. Esta sessão procura debater o lugar do conhecimento e das ideias na vida política.

Bruno Peixe é investigador da NUMENA. Economista de formação, realiza mestrado em filosofia e tem-se interessado particularmente pela obra de Alain Badiou. Eduardo Pellejero realiza actualmente pós-doutoramento em Filosofia, na FCT-UTL. Tem vários trabalhos publicados, nomeadamente acerca de Gilles Deleuze.