quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Visionamento de filmes no Anime, com a colaboração da Cinemateca - Museu do Cinema

A nossa sessão de dia 4 de Dezembro fica suspensa, sendo compensada por uma outra no dia 9 de Dezembro às 8 horas, na sala habitual. Tal deve-se a uma dupla duração da aula de Antropologia Portuguesa Contemporânea. As razões são boas e podem juntar-se a nós, se o desejarem. No dia 4 às 9h30 horas estaremos nas instalações do Anime, para visionar várias obras sobre máscaras transmontanas inseridas nas festas do ciclo de Inverno. Assim, veremos Festa, trabalho e pão em Grijó de Parada, de Manuel Costa e Silva, Máscaras, de Noémia Delgado e Imagens de Portugal 266 , um pequeno filme de 1963 sobre a festa de Torre D. Chama.


Todas as imagens aqui utilizadas foram cedidas pela Cinemateca, Museu do Cinema, a quem agradeço.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Conferência de Sónia Ferreira


Na próxima quarta-feira teremos uma conferência de Sónia Ferreira,intitulada “Eu gostava porque aquilo dava para fazer e sonhar: memória, trabalho e género numa comunidade operária da Margem Sul”. A partir do estudo de caso de um grupo de operárias de Almada, a conferencista analisará o processo de construção e cruzamento de memórias individuais e a edificação de uma memória colectiva, a partir de um referente de género e de classe. Num contexto que apresenta uma forte endogamia socioprofissional, tempo privado e tempo público cruzam-se na percepção e descrição dos quotidianos, adquirindo o local de trabalho, a fábrica, porque ligada à família e ás redes sociais significativas, centralidade neste processo.
Doutora em Antropologia pela FCSH e investigadora de pós-doutoramento do CRIA, Sónia Ferreira vem desenvolvendo um muito inovador trabalho de investigação em temas diversos, como os Movimentos Sociais, o Género, a Resistência, a Antropologia Visual, a Antropologia dos Media ou a Comunicação Intercultural.

Conferência de Tiago de Matos Silva


«Contámos-lhes as coisas como elas eram» - hegemonia e contra-hegemonias sobre o 25 de Abril de 1974.
Sob este título, Tiago de Matos Silva fará uma conferência na próxima sexta-feira, dia 27. Com base numa etnografia realizada com pais que viveram o 25 de Abril e o PREC e filhos que relembram memórias alheias, procurará esta conferência abrir linhas de discussão, não apenas sobre os limites e características do discurso hegemónico que o novo regime negociou (continua a negociar) sobre a sua própria origem, como sobre a possibilidade e objectivos das contra- hegemonias, elaboradas pelos indivíduos em privado e em resposta a um discurso público que se pretende definitivo.
Tiago de Matos Silva é licenciado em Antropologia, tendo concluído o curso com a monografia que serviu de base ao livro Pais de Abril, Filhos de Novembro. Presentemente é doutorando em Antropologia na FCSH e investigador do CRIA.

Projecto de trabalho

Uma parte significativa dos alunos optou por ser avaliada através dum trabalho, o que requer, como sabem, um estudo de terreno. O princípio de tudo, a «declaração de intenções», o guia precioso a que sempre voltarão enquanto estiverem a realizar o vosso estudo, é o projecto. No dia 25 às 15 horas, na sala 303, haverá uma sessão sobre a feitura dum projecto, com as instruções necessárias para o levar a cabo. É importante que nela participe pelo menos uma pessoa por grupo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Alojamento dos grupos em Trás-os-Montes


Acabei de fazer o último contacto e já todos têm alojamento garantido. Não será o Ritz, mas terão onde esticar o saco-cama, aquecer-se, cozinhar e tomar banho. Aqui vai a lista dos locais em que ficarão:
Grupo 1: Vítor Augusto e Francisco Ventura, em Parada de Infanções, Bragança, com Festa de Santo Estêvão, tendo o Sr.Norberto Costa e a esposa, como o restante colectivo da Junta de Freguesia, envidado todos os esforços para conseguir alojamento;
Grupo 2: João Sousa e Roman Beiu, em Duas Igrejas, Miranda do Douro, com Festa de Santo Estêvão. O Senhor Domingos Augusto Ruano, presidente há 20 anos da Junta de Freguesia e que há dois anos alojou um outro grupo, recebe-vos no mesmo local que serviu para os vossos colegas;
Grupo 3: Pedro Osório, João Miguel e Pedro Mogárrio: Samil, Bragança, com Mesa de Santo Estêvão. O Presidente Eduardo Joaquim Portela mostrou a melhor disposição para vos receber, decidindo de imediato, sem hesitações;
Grupo 4: Bruno + 1, Grijó de Parada, Bragança, com Festa de Santo Estêvão. Uma presidente de Junta com um notável dinamismo e simpatia, Maria Helena Santos, informou desde logo que ficam alojados na casa da sua sogra, que está vazia, depois de lhe serem feitas umas limpezas;
Grupo 5: Ana Candeias, Ana Dâmaso, Kinga Németh, Petisqueira, Bragança (para tratar a fronteira e as memórias da guerra civil de Espanha). O presidente da Junta de Deilão, a sede de freguesia, Sr. Manuel Inácio, que já acolheu estudantes noutros anos quer em Deilão, quer em Vila Meã, nem hesitou: que venham, serão bem recebidas na Petisqueira!
Forneço-vos pessoalmente os contactos dos presidentes de junta que tão simpaticamente acederam a acolher-vos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Kuxa Kanema, de Margarida Cardoso


No próximo dia 24, às 15 horas, na sala 303, vamos projectar o filme de Margarida Cardoso Kuxa kanema. A informação que se segue foi retirada de http://www.medeiafilmes.pt/noticias/os%20dias%20doc%202%20.%20dossier%20imprensa.doc
A primeira acção cultural do governo Moçambicano logo após a independência, em 1975, foi a criação do Instituto Nacional de Cinema (INC). O novo presidente, Samora Machel, tinha especial consciência do poder da imagem e de como utilizá-la para construir uma nova nação socialista. As unidades de Cinema Móvel vão mostrar por todo o país a mais popular produção do INC, o jornal cinematográfico Kuxa Kanema.
Kuxa Kanema quer dizer o nascimento do cinema e o seu objectivo era: filmar a imagem do povo e devolvê-la ao povo.
MAS HOJE A REPÚBLICA POPULAR DE MOÇAMBIQUE passou a ser, simplesmente, a República de Moçambique. Da grande empresa que foi o INC não sobra quase nada. Destruído por um fogo em 1991, só restam do edifício salas e corredores abandonados onde alguns funcionários esperam pacientemente a reforma. Num anexo apodrecem, esquecidas, as imagens que são o único testemunho dos onze primeiros anos de independência, os anos da revolução socialista.
É ATRAVÉS DESTAS IMAGENS e das palavras das pessoas que as filmaram que seguimos o percurso de um ideal de país, que se desmorona, pouco a pouco, com o ideal de “um cinema para o povo” e com os sonhos das pessoas que um dia acreditaram que Moçambique seria um país diferente.

Festivais
DOCS LISBOA 2003
IT’S ALL TRUE | 2003 – O Estado das Coisas
FID MARSEILLE | 2003 – Competição Internacional
Festival Caminhos do Cinema Português Melhor Documentário de Televisão
Festival Internacional do Filme de Amiens
DOCS Barcelona Workshop
Rencontres Internationales du Documentaire de Montréal - official selection
Biografia
MARGARIDA CARDOSO nasce em 1963, em Portugal.
De 1978 a 81 frequenta o curso de Imagem e Comunicação Audiovisual da Escola António Arroio. Durante dois anos trabalha como assistente de fotografia publicitária e industrial e em 1983 começa a trabalhar como anotadora e assistente de realização.
Dessa experiência contam-se mais de 40 filmes, portugueses e estrangeiros.
Em 1996 realiza a sua primeira curta metragem.

Chile – memória oficial e memória clandestina

Na passada sexta-feira, Sónia Ferreira apresentou-nos uma conferência sob o t´titulo em epígrafe. Em 1973, após a queda do regime de Salvador Allende, gera-se na sociedade chilena uma cisão na realidade social. A repressão e a morte instalam-se como fenómenos permanentes, embora subterrâneos e clandestinos, e as contradições sociais extremam-se de tal modo que os significados e valores da vida quotidiana dos sujeitos se alteram de forma irredutível. Neste contexto, dão-se processos de construção da memória profundamente traumáticos em que a uma memória oficial e estatalmente reproduzida, se opõe uma memória clandestina e acossada que procura legitimar experiências sociais não reconhecidas e consequentemente excluídas da memória oficial da nação. A conferencista debateu estas questões a partir da análise das histórias de vida de um grupo de mulheres chilenas e do seu percurso enquanto militantes políticas e “viúvas” de detidos-desaparecidos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Preparação para o trabalho de terreno: falemos de Trás-os-Montes


Em Dezembro partiremos para uma curta estadia de cerca de duas semanas no terreno transmontano. Para recomendar leituras, reflectir sobre o contexto e preparar a ida, encontramo-nos na sala 303 no dia 18, 4ª Fª a partir das 15. É bastante importante que venha um elemento de cada grupo, pelo menos.

IELT e Cramol na FCSH


Lá vos espero.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Em Vinhais, no Natal frio de 2006

Em 2006 houve muitos grupos no terreno, mais que noutros anos. Grande parte dos alunos partiu comigo para Chaves, onde assistiu a um congresso sobre as memórias da raia acerca da guerra civil de Espanha, partindo depois para as aldeias. Se três grupos ficaram em aldeias do concelho de Chaves, vários outros partiram para o concelho de Vinhais, onde os presidentes de junta tudo fizeram para lhes conseguir alojamento adequado. Nem sempre foi possível, confortando-se os menos afortunados com as histórias que trouxeram para contar. Encontrei alguns na vila:



Bem instaladas, as aprendizes de antropólogas que ficaram na Mofreita iam percebendo que a antropologia sem a história perde profundidade, adquirindo o seu trabalho de terreno uma vertente processual inicialmente insuspeitada. Foram elas que acudiram aos colegas mais desvalidos, que dormiam num chão de pedra numa outra povoação, levando-lhes cobertores salvíficos...

Em Vilar Seco de Lomba os estudantes tiveram de reconverter o seu objecto: se se preparavam para trabalhar o contrabando e as relações de fronteira, perceberam que fenómenos de mudança e novos enquadramentos locais se tornavam prioritários. Um deles, o Francisco, haveria de fazer no ano seguinte um longo trabalho de terreno, de que resultaria um estudo que mereceu nota máxima na monografia final.


O Tiago e o Sadik, com grande empenhamento mas menos boas condições de logística, estavam entre os vizinhos da aldeia quando cheguei. Fariam um trabalho duma etnografia fina, entre dúvidas e problemas que discutiríamos longamente.
Em Montouto era um frio de rachar. Quando cheguei, os vizinhos contavam as proezas dos jovens antropólogos que haviam resolvido ir de Vinhais à aldeia de bicicleta, apesar do frio. A aldeia era, como grande parte nessa zona, um núcleo que perdera grande parte dos habitantes, desde os anos '60.




Já na vila, os jovens investigadores de vários dos grupos tinham combinado um encontro. Como tinham que consultar alguns arquivos na Câmara Municipal, ir à Biblioteca, procurar os padres para aceder aos registos paroquiais, aproveitaram para um café em grupo e para trocar informação: "Na nossa aldeia é assim...".

Armas dos fracos e resistência quotidiana

Em Weapons of the Weak - Everyday Forms of Peasant Resistance, James C. Scott (1985, New Haven and London, Yale University Press) parte do princípio de que falta ter em conta que a maior parte das classes subordinadas por grande parte da história raramente atingiram o luxo de uma aberta e organizada actividade política. Essa actividade política formal e organizada, mesmo se clandestina e revolucionária, é tipicamante das classes médias e da intelligentsia, e procurar a participação política camponesa aí é fazê-lo em vão. Vai ter em conta as armas de grupos sem poder, cujas acções não fazem cabeçalhos de jornais: o arrastar de pés, a dissimulação, a deserção, a falsa submissão, a gatunice, a alegada ignorância, a difamação, o fogo-posto, a sabotagem, etc., formas Schweikianas da luta de classes, que evitam a confrontação directa com as autoridades. O objectivo é demonstrar quão importantes, ricas e complexas são as relações de classe locais, e o que pode potencialmente aprender-se de uma análise não centrada no estado, nas organizações formais, no protesto declarado ou nos problemas nacionais.
A performance pública requer aos indivíduos formas elaboradas e sistemáticas de subordinação social, do trabalhador em relação ao patrão, do rendeiro em relação ao proprietário, do servo ao senhor, do escravo ao dono, do intocável ao brâmane, de um membro de uma raça submetida a outra dominante. Com raras mas significativas excepções, a performance pública dos subordinados – por prudência, medo e desejo de obter favores – tenta corresponder às expectativas dos poderosos. Em Domination and the arts of Resistance- Hidden Transcripts ( New Haven and London, Yale University Press, 1990) James C. Scott interroga a relação entre o registo publico , que serve para recobrir as interacções abertas entre os subordinados e os dominantes e o registo escondido, que é o lugar privilegiado do discurso não hegemónio, contrapontual, dissidente, subversivo.Se os fracos têm óbvias e evidentes razões para buscarem refúgio atrás de uma máscara quando estão na presença do poder, os poderosos também têm as razões correspondentes para adoptar uma máscara, em presença dos subordinados. Fora de cena, também entre as elites o discurso tem uma modalidades camuflada, tal como entre os subordinados. Esse registo escondido consiste nos gestos e palavras que inflectem, contraditam ou confirmam o que surge no discurso público.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Conferência de Sónia Almeida

Na próxima quarta-feira, dia 11, a Prof. Doutora Sónia Almeida orientará a nossa sessão, sob o tema "Ruralidade e Revolução: as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA (1974-1975)". Partindo de uma etnografia construída em torno das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do Movimento das Forças Armadas (1974-1975), a conferência procura examinar a apropriação do mundo rural, em concreto das zonas de agricultura familiar do Norte e Centro do país, na legitimação da agenda política da revolução de 25 de Abril de 1974.
Numa tentativa urgente para organizar e construir um ”outro país”, os agentes envolvidos foram intérpretes de um país a que se procurava dar visibilidade ocupando para tal um “território” privilegiado para formulação e transmissão de imagens sobre Portugal nas quais a nação enquanto sinónimo de ruralidade é convocada na consagração da mudança política. É uma oportunidade a não perder, que permitirá conhecer o trabalho de Sónia Almeida, que é professora do Departamento de Antropologia da FCSH e bolseira pós-doc da FCT, bem como investigadora e dirigente do CRIA. Ao lado, a obra da autora, lançada em Maio passado.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Movimentos Sociais e resistência


Os momentos de violenta passagem, que transportam historicamente a marca da fricção, da interferência ou da ruptura com o passado têm vindo, principalmente desde os anos 70, a tomar lugar de destaque nos estudos levados a cabo por sociólogos e antropólogos. Algumas das formas de resistência sem protagonistas, e plenas de actores secundários, foram ignoradas até recentemente pelas ciências sociais, tendo-lhes sido negado um lugar nomeadamente no universo da antropologia política. Todavia, um conjunto de manifestações, com o seu quê de brechtiano ou de picaresco, dissimulam acções que, ainda que tendo sido arredadas, esquecidas ou remetidas para o domínio do não-político, constituem formas veladas de realizações no domínio político levadas a cabo por indivíduos que integram as camadas subordinadas da sociedade. Disso falaremos ao longo de algumas aulas, questionando as modalidades de acção colectiva, que pode ir de formas menos organizadas - como as turbas, e os tumultos - a outras mais estruturadas, com líderes, programas de actuação e formas de organização mais ou menos burocratizadas.

Estudantes em trabalho de terreno na fronteira em 2008

No ano de 2008 a fronteira sul acolheu vários grupos de estudantes durante as férias do Natal, graças à generosidade, ao interesse e ao empenhamento de alguns presidentes de junta de freguesia.


Ao Roman e ao João surpreendi-os no café local, em plena entrevista, logo que cheguei. Estavam em Montes Juntos, no concelho do Alandroal, onde anos antes estivera o Luís Silva (que estudou as relações com Cheles, do outro lado do Guadiana). Se então o rio era atravessado a pé, agora a fronteira engrossou, com a barragem do Alqueva.


O Joaão o Nuno e a Vanessa estavam nas Minas do Bogalho, também no Alandroal. Ganharam localmente a reputação de se levantarem muito cedo - assim responderam à minha recomendação de se adequarem aos ritmos da vida local - coisa que muito impressionava o presidente da Junta, um homem muito gentil que reconhecia a enorme importância do trabalho que os três jovens antropólogos levavam a cabo.


À Mara, à Soraia e ao Paulo interessou, na belíssima Jurumenha, no concelho do Alandroal, a fronteira alimentar, com o peixe e o pão, o património gastronómico e os novos hábitos alimentares que cruzam esta raia de sabores. Uma etnografia muito rica, obtida numa aldeia em que as modificações na estrutura do emprego têm sido evidentes.


O Sérgio e as Anas estavam na fronteira mais a sul, em Alcoutim, que tem como povoação-espelho Sanlúcar. Mais próximos da fronteira-muro do sul de Espanha, que separa a rica Europa do sul pobre, confrontaram-se com as ambiguidades em torno da utilidade da construção duma ponte, que viria a ter centralidade no trabalho que desenvolveram.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Terrenos de fronteira


Uma das propostas de trabalho de terreno da cadeira, neste caso fora de Lisboa, remete para a fronteira norte de Portugal. Tem diferenças assinaláveis relativamente à fronteira da foto acima, em Jurumenha, no concelho de Alandroal, com o seu castelo em ruínas (futuro empreendimento turístico, dizia-se em Dezembro passado) e o Guadiana, onde estiveram alguns dos colegas que, no ano anterior, se deslocaram para uma estadia de campo. Como as férias do Natal não tardam e há que assegurar a logística dos estudantes que queiram partir, na próxima aula recolherei a lista dos grupos interessados. Organizem-se!